quinta-feira, 10 de abril de 2014

das variações



o coração já não bate

apanha

o sistema nervoso
sente-se um tanto
raivoso

...

na fome que (não se) mata
é claro o gosto amargo
do amor que não se (infl)ama.
acende uma vela pra pedir proteção.
(chama e clama por companhia.)

era pra ser o descanso,
mas da mínima perda
foi ao descaso
numa máxima pena,
já que na insônia
nunca pôde sonhar.

e sempre se espera um novo dia
frequentemente nas noites.
ainda que se amanheça,
e todas as estrelas
não mais apareçam
por causa de uma.

até já lhe disseram
mas só acreditou sentindo:
o espinho também vem na flor.

são as marteladas no prego.
mas o coração já não bate,

apanha

quinta-feira, 27 de março de 2014

da incompletude

delírios à deriva
em falas sem ouvintes.
braços
sem abraços.
olfato
sem fragrância.
olhos abertos
que nada veem.
porta retratos
sem fotografias.

cartas escritas
sem destinatário.
são páginas
que não são viradas.
um coração partido
em poemas inacabados.


Jefferson Santana

quinta-feira, 20 de março de 2014

outonal



dos dias em que plantei ideias 
para os tempos de hoje,
foram-se folhas e mais folhas 
que caíram em minhas mãos

num outro ponto de vista,
vi que é chegada a colheita
para que novos frutos possam ser gerados,
para serem o alimento
de quando estiver novamente nesta estação

Jefferson Santana

terça-feira, 18 de março de 2014

a ânsia de chegar ao fim era tanta,
que esbarrou logo no começo
e ficou meio sem rumo.

e pra rumar
teria que arrumar
outro modo
de moldar o caminho:

ousaria voar,
mas antes no chão
cobiçaria a firmeza,
até que seus pés
pudessem tomar impulso,
sem se importar
com os passos dados pra trás.

estaria de braços abertos
pra sentir
cada brisa de vento chegar,
e de fato se entregar por inteiro.

Jefferson Santana

segunda-feira, 10 de março de 2014

da vez que dei à luz



ocultei poemas
na esperança de poder dizê-los
na ausência de qualquer
pesadelo.

mas como
a aurora
não veio,
os dois copos
não foram enchidos
e o par de corpos
permaneceu nos ímpares,
eu abro um caderno antigo,
esse de outrora
em que ela também
não estava comigo.

vou dando à luz
poemas escritos
na madrugada,
e tento tornar lágrimas
em orvalhos de amanhecer.

 

Jefferson Santana

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sinestesia II

ao sentir o castanho
dos teus olhos
vi o calor e a dor
escorrer pelo vermelho
do meu sangue

sinestesia

era tão cego
que conseguia ler
o que o coração dizia.

sofria com o sopro
daqueles embalos que lhe tocavam,
como ruídos que doíam
na carne.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

nosso tempo se esvaiu
num poema velho
não há nada que valha
ser lembrado
nem mais escrito
ou em versos
dito

mas a memória é uma película
que reedita os capítulos ambíguos

meus versos dialogam
com poemas de outrora

é das medidas
aquilo que não quer ser...
embora seja

naquilo que houve
ainda tenha
essas trocas semânticas
e românticas de significâncias

já quis meus olhos vendados
embora veja
que tudo que não fez sentido
é sentimento
que ficou na mente
e não permite
que de coração
minta

(a vida e a escrita tornaram-se leais parceiras, embora de vez em quando duvide de ambas)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Da poesia que quer circular fora de mim

Hoje senti vontade de escrever um poema.
Talvez ele faça um rolezinho num shopping,
talvez ele seja detido
simplesmente por querer circular
fora das limitadas áreas de rodapé
e talvez por isso tentem apagá-lo na base da borrachada...
só por tentar mostra-se fora dos limitados quadrados de rodapé.

Já quis só escrever algo
que ficasse retido em páginas,
mas hoje a história insiste pra que seja de outra forma:
quero berrar pro mundo inteiro
a poesia que não se retém
nas limitadas demarcações de rodapé.

Hoje a poesia que toma conta de mim
não pode acabar em demarcações,
somente introduzida nas folhas de rosto
e avaliada pela capa.
Poesia tem que ir além da contracapa
Embora não seja obra de ostentação declarada,
quer ser o foco dos olhos,
a música entoada nos ouvidos
e o passo além dos rodapés
das páginas que se noticiam no país.

Jefferson Santana

domingo, 12 de janeiro de 2014

Dos questionamentos que (sobre)vivem

Transformar 
o que sobrou das ruínas
de um coração
partido
em organizados versos e estrofes
é questão de vida/morte

ou poesia?


Jefferson Santana