segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sinestesia

era tão cego
que conseguia ler
o que o coração dizia.

sofria com o sopro
daqueles embalos que lhe tocavam,
como ruídos que doíam
na carne.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

nosso tempo se esvaiu
num poema velho
não há nada que valha
ser lembrado
nem mais escrito
ou em versos
dito

mas a memória é uma película
que reedita os capítulos ambíguos

meus versos dialogam
com poemas de outrora

é das medidas
aquilo que não quer ser...
embora seja

naquilo que houve
ainda tenha
essas trocas semânticas
e românticas de significâncias

já quis meus olhos vendados
embora veja
que tudo que não fez sentido
é sentimento
que ficou na mente
e não permite
que de coração
minta

(a vida e a escrita tornaram-se leais parceiras, embora de vez em quando duvide de ambas)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Da poesia que quer circular fora de mim

Hoje senti vontade de escrever um poema.
Talvez ele faça um rolezinho num shopping,
talvez ele seja detido
simplesmente por querer circular
fora das limitadas áreas de rodapé
e talvez por isso tentem apagá-lo na base da borrachada...
só por tentar mostra-se fora dos limitados quadrados de rodapé.

Já quis só escrever algo
que ficasse retido em páginas,
mas hoje a história insiste pra que seja de outra forma:
quero berrar pro mundo inteiro
a poesia que não se retém
nas limitadas demarcações de rodapé.

Hoje a poesia que toma conta de mim
não pode acabar em demarcações,
somente introduzida nas folhas de rosto
e avaliada pela capa.
Poesia tem que ir além da contracapa
Embora não seja obra de ostentação declarada,
quer ser o foco dos olhos,
a música entoada nos ouvidos
e o passo além dos rodapés
das páginas que se noticiam no país.

Jefferson Santana

domingo, 12 de janeiro de 2014

Dos questionamentos que (sobre)vivem

Transformar 
o que sobrou das ruínas
de um coração
partido
em organizados versos e estrofes
é questão de vida/morte

ou poesia?


Jefferson Santana

sábado, 11 de janeiro de 2014

pequeno livro aberto de um casal:

um é a poesia
o outro a prosa

a impressão que se tem
é que é um romance
e de vez em quando (in)versos
ri(t)mados um com o outro

assim superam a (con)tradição

Jefferson Santana

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Daquilo que não queremos expôr e dos acúmulos desnecessários



Por sofrer de vulnerabilidade
construiu fortalezas em volta do coração.
Ninguém mais entraria pra fazer bagunça.
No entanto, toda a circulação foi comprometida.
Acabou sofrendo de intransponibilidade.

Pensou em mudanças,
mas nada do que estava dentro saía,
nada do que estava fora entrava.
Pensou em por fogo em tudo,
mas era como alimentar a chama que já existia lá dentro e não se apagava.
Certo era que restariam somente as cinzas,
mas tinha coisas que não mereciam ser queimadas,
nem seu corpo debilitado 
que certamente não conseguiria fugir do cerco.

O tempo
era um inimigo que noite a noite era mais cruel,
enquanto o corpo mais fraco 
e a fortaleza sempre estática.
Contudo, era como se envelhecesse 10 anos em 1,
como se as pernas já não pudessem rumar,
e os muros estivessem imponentes sempre no mesmo lugar.

Morreu no início de uma madrugada.
Se alguém pudesse ter dado diagnóstico apontaria: insuficiência pulmonar.
A morte foi acontecimento sem alarde,
pois o coração inchou-se exacerbadamente,
devido aos fungos que nunca deixaram de se reproduzir,
até o ponto de não ter mais como dar um suspiro... um último suspiro de vida.

Jefferson Santana

domingo, 22 de dezembro de 2013

Das impaciências

Não tenho tido paciência com a vida.

Quero o protagonismo da história
mas não sou nem o poema das prateleiras.

Ainda assim, peguei minhas armas e atirei...
rajadas no escuro, no vão,
embora buscasse o muro das indiferenças.

Os muros são surdos,
há muitas vozes retidas,
ecos que se retêm,
ecos que se refletem.

Os muros parecem mudos,
mas há tantos mundos separados por tais,
que é impossível contextos sem textos.

Há pingos pra serem inseridos nos "Is"
e crases ainda não aparentes nos "As".
Nem sempre as frases que berrei foram poesia
e nem sempre a poesia foi entendida em frases,
mas busquei alguma cadência com os versos,
embora tenha restado essa carência de não ser compreendido.

O riso é algum risco na face escancarado,
e alguns rios desaguam em cachoeiras.
Não tenho vivido os riscos
e minhas lágrimas têm se acumulado feito lagoa.
Nem por isso tenho deixado de almejar os mares
de todos esses mundos que me roubaram.

Chamaram-me de poeta dramático,
mas como ser poético sem algum drama?
Acho que carrego desde criança uma ausência,
que mesmo com o coração cheio me falta.
Busco preencher nas folhas essa minha falta...
essas minhas advertências.

Faltam-me as estantes e os instantes de alguns olhos a mim atentos.
Mas as prateleiras também são estáticas e eu quero servir pra alguma coisa.
Quero ser a primeira poesia do amanhecer
e a última que repouse no anoitecer.  

Jefferson Santana

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

bloco de notas

na falta dela
fazia amor com as palavras

não satisfazia a libido
mas na cama
ao revirar as folhas
em algo era correspondido

jefferson santana

domingo, 1 de dezembro de 2013

A (in)capacidade do poeta



Não tinha o que dar de comer aos esfomeados,
nem matar a própria sede nos lábios de seu amor.

Tinha apenas folhas vazias
e muitos pontos pra colocar.

Sabia que cedo ou tarde poderia virar essa página.

Então foi tentar a felicidade por algumas linhas,
na redação de seus sonhos.

Jefferson Santana

sábado, 2 de novembro de 2013

(Des)encontros



Nossas vidas se cruzaram de modo tão inesperado
que nos atropelamos.

(Não sei quem segue mais machucado,
mas por aqui a dor se esparramou em lágrimas
que só com o passar do tempo se secarão.)

Ainda debilitado de movimentos 
levantei-me do chão e avistei que à frente 
havia pelo menos meia dúzia de semáforos e dezenas de setas.
Vi um homem aparentemente cego
que desafiava todas as indicações presentes.
Ele talvez só enxergasse com a bengala
e com o coração na mão 
por poder morrer a qualquer instante.
Mas ele seguia valente seu próprio caminho,
por talvez sentir todas as outras coisas a mais que eu.
Não sei qual força o movia,
mas eu precisava encontrar a minha.

Ah, sobre nós os atropelados,
seguimos as mesmas direções que estávamos antes,
ainda que já não somos mais os mesmos de outrora.

Jefferson Santana