quinta-feira, 26 de abril de 2012

TABACARIA - Uma obra prima da literatura





Por Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)



Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.



Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.



Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.



Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?



Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.



(Come chocolates, pequena;                                    

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)



Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.



(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,

Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que também existem,

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)



Vivi, estudei, amei e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente



Fiz de mim o que não soube

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.



Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.



Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como genteContinuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,



Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.



Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.



Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.



Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.



(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


sábado, 21 de abril de 2012

ORAÇÃO DO GUERREIRO




Pai nosso que estás no céu
Não abandone a Terra
E nem o meu coração.
Não me deixe cair na tentação
De negociar meus sentimentos,
Enterrar pensamentos
E de concordar com os tiranos.
Não abandone a Terra
E nem o meu coração.

Pai nosso, eu te pergunto:
Se somos todos teus filhos
Por que nossas condições são diferentes?
Tenho fome e sede de resolver,
Porém do conhecimento
Poucas partes me apresentaram.
E não pude reter
Valor de significado suficiente
Que pudesse me deixar sossegado.
Por isso eu te pergunto.

Pai nosso,
Eu estou entediado!
Já fiquei de joelhos,
Porém, agora preciso caminhar.
Seja a ventura que for,
Que sejas capaz de me perdoar.
Só não é mais possível ficar de joelhos
E esperar que o céu venha buscar os inocentes.

(Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

MOVIMENTAÇÃO




Ando pela rua
E vejo uma bicicleta,
Seguida por uma moto,
Seguida por um carro,
Seguido por um caminhão,
Sombra do avião,
Chega!
Já estou com a cabeça na Lua.


(Jefferson  Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

POEMA MEIO ESTRANHO





Nasci em Dezembro,
Porém em Junho
É quando começa o inverno.

Quando doze são os sonhos
Tenho a noção de
Meias tristezas
,
Meia dúzia de rosas vermelhas
Cortadas
Fazendo-me sangrar.

Meias palavras
Não são
Meios sentimentos.

Muitos sussurros,
Tantas dores,
Diversos temores.
Minha maior mentira
É dizer
Meia verdade,
Falsidade
Do medo que prevalece,
Num corpo que pré envelhece,
Como tolice
De média escala.

De tudo
De pouco
.

Sem mais
Sem menos.

Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro

sábado, 31 de março de 2012

Meu ato poético




EU POÉTICO

Aqui tento dirigir palavras,
Mas sou somente passageiro,
Guiado sem destino
Na estrada destas linhas.

Aqui meu amor é vasto,
Minha raiva é poderosa,
Minha angústia é dolorosa,
Registros de intenso conflito.

Palavras vou remendando.
Poemas vou escrevendo.
Se sou certo ou desastrado
É porque sou espontâneo e estabelecido.

Uma mão
Escreve sentimentos numa folha branca,
Uma folha branca
É rabiscada por linguagem poética.


E toda a dor
Que insisto em expor
É o sofrimento
Que em linhas torna-se relato.

E tudo
Não faz sentido algum
E nada
Não é simplesmente nenhum.

E toda felicidade
É contraste da realidade,
Pois no real
Há sempre o contato com o mal.

E se me sinto no céu
O retrato é o papel,
Pois os versos descrevem
As emoções que não se medem.

Caso minhas linhas sejam tortas
É porque são emoções expostas.
Emoções não são precisas e certas,
Mas dominam páginas completas,
Não só de um caderno
Mas de uma vida em tempo eterno.
Assim, vidas acabam
E as palavras ficam.

Toda a expressão
Escrita nestas folhas,
Com todo meu exagero,
É proveniente do coração.

(Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)




domingo, 25 de março de 2012

Poesia do silêncio




O silêncio é a poesia
Estancada no vale da consciência.
É a poesia reprimida,
que se mantêm indecifrada.

Poesia oculta,
Revoltada e paralítica.
É a poesia fingidamente morta,
Sem exclamação e sem música.

Nós humanos que criamos termos
Somos os mesmos que calamos discursos.
Passamos a vida a poetizar
Sem uma expressão recitar.

(Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Desabafo: Mediocridade!!!



Vivemos numa sociedade medíocre, onde o imperialismo econômico prevalece, frente as necessidades das pessoas. Vivemos numa sociedade tão medíocre, que nem a básica educação existe para todos, e aqueles que estão fora de uma determinada elite econômica e querem dar um voo mais alto do que essa medíocre educação básica, tem muitas vezes seus direitos questionados.

Estudei em escola pública por toda a minha vida e pelas minhas condições sociais, estava taxado a estar dentro do imenso grupo que não tem acesso ao Ensino Superior. Porém, tive a oportunidade de realizar o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e acabei beneficiado pelo PROUNI (Programa Universidade Para Todos), que na verdade ainda não beneficia todos aqueles que desejam ingressar em uma universidade, mas que tem ajudado a muitas pessoas a conquistarem esse sonho. Apesar disso, as dificuldades para uma pessoa de classe média baixa ter acesso ao Ensino Superior são ainda gigantescas. Uma das mediadas adotadas para diminuir ainda mais o esse déficit é a substituição dos tradicionais vestibulares pela nota da prova do ENEM, onde várias universidades, ao invés de aplicarem vestibulares, utilizam a nota obtida pelos alunos no ENEM. Sabe-se que há muito interesse comercial neste ato, pois as Universidades e Faculdades podem ter mais alunos no seu quadro de pagantes, porém, para quem está querendo cursar o Ensino Superior é uma ótima oportunidade de mostrar seu esforço numa prova onde todos os estudantes, de todas as classes sociais têm o mesmo critério de avaliação.

No entanto, o que acontece nessa sociedade medíocre é que muitos daqueles que pertencem a uma minoria social que detêm a maioria do capital, se opõem a esta medida de inclusão, alegando que serão prejudicados pois pessoas de diferentes "níveis" poderão concorrer diretamente com eles às vagas existentes no Ensino Superior. É nessas horas que eu me pergunto se esses burguesinhos não tem vergonha na própria cara? Pelo jeito não têm... sabem que os prejudicados sempre são aqueles que pertencem a maioria com pouco capital, que mal teriam dinheiro para pagar e fazer um vestibular e que pelos métodos discriminatórios tradicionais presentes nessas provas mesmo que pagassem, não teriam chance de passar em tais vestibulares, mas mesmo assim... olha eles aí, mostrando que "Gente Diferenciada" não pode ter acesso ao Ensino Superior num método igualitário a todos, onde todos serão avaliados da mesma forma.

Realmente... é por estas e outras que vivemos numa sociedade medíocre... mas muito medíocre!!!!

sexta-feira, 16 de março de 2012

VISÃO INVISÍVEL



Perdida mente
Neste espaço cinzento.
Nada penso,
Do que faço
Sem compasso.
Nenhuma via se abriu
Com os ventos do outono
E perdidamente
O corpo luta contra o sono
De noite não dormida,

Do dia velado.
É fria madrugada!
Perdidamente
Deserta e escura.

Perdidamente
Sem rumo definido.
Perseverante
A visão invisível.
Invencível
Capacidade de se perder. 

(Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)

quinta-feira, 8 de março de 2012

As mulheres




As mulheres são essencialmente a inspiração
poética
mais estética,
entre as estrelas do universo
e as flores dos campos diversos.

Mulheres são os versos
mais trabalhados
que a poesia da vida pode oferecer.
Contidas de ritmo a nos fortalecer,
de combinações de sentidos a nos contagiar
e a palavra mais segura para nos resgastar.

(Jefferson Santana)

sexta-feira, 2 de março de 2012

COISAS




Algumas pessoas esquecem,
Outras nem tanto,
Muitas, porém preocupam-se.

Correr, correr, correr...
E nunca fugir de nada.
Nunca chegar além.

Perder, ganhar, estagnar.
O pior é não se movimentar:
É perder alegria e ganhar desespero.

Faltar
Como é ruim faltar algo,
Porque nada é completo?

O resto
O principal
Há coerência nisso?

Ser assim
Quem determinou?

(Jefferson Santana in Cantos e Desencantos de um Guerreiro)